viernes, 13 de agosto de 2010

O Caracol


Este pequeno conto foi inspirado no poema "Leilão de Jardim" de Cecília Meirelles.


O menino andava de um lado para o outro, mais agitado que habitualmente. A mãe sorria, observando seu garotinho... ele vinha crescendo tão rápido!

— Mamãe! Tem um monte de joaninhas aqui! — ele dava pulinhos de alegria em frente a um canteiro de rosas.

— Não as assuste, Pedro, elas comem os pulgões, que fazem mal para as roseiras. Se você quer ver rosas bonitas na primavera, deixe as joaninhas aí. — a voz calma da mãe trazia implícita uma ordem.

— Não posso pegar nenhuma? — um beicinho de choro se formou na boquinha rosada do garoto, seus olhinhos azuis exigiam uma resposta.

— Não, meu filho. Se você tentar pegar uma, assustará as outras.

O tom da voz dela deixava claro que não queria uma réplica. Já que não podia brincar com as joaninhas, tinha que procurar outra coisa para se distrair enquanto a mãe podava as roseiras e as cercas-vivas. O muro recoberto pela hera era reduto de vários bichinhos, mas como alguns eram perigosos, faziam dodói, ele era proibido de chegar bem pertinho. Só podia ficar olhando de longe.

— Não mexa na hera, Pedro.

— Eu já sei, mamãe, estou só olhando, como a senhora me ensinou.

Mãe e filho trocaram um sorriso repleto de amor, mas o garoto não ficou olhando sua mãe por mais tempo, porque um sapo passou na sua frente, pulando apressado. Imediatamente, Pedro se pôs de quatro e, saltitando numa tentativa de imitar o sapo, fez o mesmo caminho que ele. A mãe riu muito.

Mas logo o sapo perdeu a graça, e suas próximas vítimas foram as borboletas coloridas que sobrevoavam o jardim, buscando os últimos néctares do verão na luta pela sobrevivência no duro e longo inverno. Durante muito tempo, Pedro correu de um lado para o outro do amplo jardim de sua casa atrás delas.

A mãe o observava com uma ponta de tristeza, perguntava-se se ele continuaria a ser esse garoto alegre que estava na sua frente depois de encontrar-se com o pai. Fora uma decisão maluca, da qual já se arrependera, mas que não podia voltar atrás.

Pedro sempre lhe perguntara sobre o pai, e ela o respondera com evasivas. No último verão essas perguntas se tornaram mais freqüentes, ele estava compreendendo melhor as famílias de seus amiguinhos e ficava perguntando por que a sua era diferente? Onde estava seu pai? Muitas noites de sono a mãe perdera pensando em qual seria a melhor decisão para ele. Não podia ser egoísta, tinha a obrigação de fazer o que era melhor para o seu filho. Fora com um aperto no coração que decidira levá-lo ao Japão e apresentá-lo ao pai.

Tomara a decisão num arroubo, característico de sua natureza apaixonada, e logo contara ao filho que iam viajar ao encontro do pai dele. Pedro ficara entusiasmado e contara para todos seus amigos que ia viajar para visitar o pai. Suas amigas da aldeia vieram conversar sobre o assunto e a aconselharam a desistir da idéia, mas já era tarde: não podia decepcionar seu filho.

— Mamãe, quantos dias faltam pra gente viajar para ver o papai?

O olhar ansioso do garoto a fazia estremecer... e se o pai não quisesse vê-los? Estaria ela proporcionando a seu filho uma decepção ainda maior do que se desistisse agora e só o deixasse ir atrás do pai quando fosse homem feito? Rezava todos os dias para que as coisas não fossem assim.

— Três dias, meu amor, por isso estou me apressando em deixar o jardim pronto para o inverno. Quando voltarmos para casa, encontraremos nosso jardim lindo como sempre foi.

— Nós vamos voltar? Pensei que a gente ia ficar lá para sempre...

A mãe deu um suspiro triste... bem que suas amigas disseram que foi uma decisão tola. Deveria ter continuado sua vidinha ali, só os dois... se amavam o suficiente para uma família inteira.

— É claro que nós vamos voltar, Pedro, essa é nossa casa.

— E o papai vai voltar com a gente? — sua vozinha infantil tremeu, mostrando que ele possuía uma certa noção da vida adulta.

— Acho que não, meu amor.

O garoto ficou um tempo em silêncio, olhando os bichinhos do jardim e pensando no futuro.

— Nem sei se eu vou gostar dele. Se for chato, é bom que fique lá mesmo. — disse Pedro depois de um longo silêncio.

Isso cortou seu coração de mãe, demonstrava a insegurança que ele tinha em relação a esse encontro. Ainda havia tempo para desistir... enquanto não embarcassem no navio, poderia mudar o rumo dessa história. Porém, nunca fora mulher de faltar com suas promessas ao filho, e lhe prometera que encontraria seu pai. Fosse qual fosse o preço, teria que cumprir isso.

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